Às vezes, paro para pensar: quantos passos, quais escolhas,
quantos momentos da minha vida poderiam ser comparados a um ano-luz? Parece
estranho, não é? Mas se refletirmos bem, minha jornada, essa que percorro desde
o instante em que nasci, parece, sim, seguir um caminho tão grandioso quanto a
luz que atravessa o universo por um ano inteiro. Não, eu não sou uma estrela, e
tampouco sou capaz de viajar pelo cosmos com a velocidade de 300 mil quilômetros
por segundo. Mas, no meu próprio e pequeno universo, sou parte dessa imensa
jornada cósmica.
É pensar fascinante que, a cada segundo, eu me movo no espaço
e no tempo. A Terra gira em torno do Sol a mais de 107.000 km/h, e, junto com
ela, eu também sigo. Tudo parece tão sonoro, tão vivo. E quando olho para o céu
noturno, com as estrelas reluzindo como pontinhos distantes e misteriosos,
percebo que, embora esteja aqui, em Campos do Jordão, meu olhar alcança o
passado, a luz que passa anos para chegar até mim. Mas e eu? Onde está minha
luz? Qual é a distância que percorri até agora?
Aos 66 anos, tenho mais de seis décadas de experiências e
momentos gravados no meu ser. Quando penso em tudo o que vivi, posso ver como
os meus passos foram infinitamente menores, mas não menos importantes, do que a
jornada da luz. Sim, eu sou um viajante cósmico, mas com um ritmo mais calmo,
mais terrestre, mais humano. No entanto, a minha caminhada não deixa de ser
significativa. À minha maneira, percorro o meu próprio ano-luz, ainda que em
uma velocidade mais lenta, mais atenta, mais presente.
No espaço, um ano-luz é uma distância colossal. Mas, ao
olhar para trás, eu percebo que o meu ano-luz não se mede apenas em milhas ou
em tempo, mas nas experiências que colecionei, nas memórias que ainda guardo,
nas pessoas que encontrei e nas histórias que vivi. Minha viagem não precisa
ser rápida para ser importante. Cada passo que dei, cada história que escrevi,
cada palavra que falei, me trouxe até onde estou agora. E, de alguma forma,
todas essas experiências, esses pequenos momentos de luz, atravessam o espaço e
o tempo, assim como a luz das estrelas, com a diferença de que elas são minhas.
E o que são 66 anos, se comparado ao que já viajei e vivi?
Quantos planetas passei, quantas luas observei, quantos campos de estrelas
cruzei enquanto olhava o horizonte da minha cidade? Enquanto estive aqui, em
Campos do Jordão, caminhava pela vida, vi o sol se pôr e se levantar mil vezes,
como se o universo estivesse me dizendo, com seus próprios ritmos, que tudo está
em movimento, que tudo, no fim, é uma viagem. Eu viajei até o meu eu mais
profundo. Viajei sem tempo. Viajei no céu e no interior da Terra.
E, quando penso nas estrelas que observamos, com seus bilhões
de anos-luz de distância, percebo algo mágico. Nós, humanos, temos essa
capacidade única de refletir sobre o vasto espaço, sobre a distância que o
tempo coloca entre nós e as estrelas, e ainda assim, em nossa pequenez, somos
parte dessa imensidão. A luz das estrelas é um reflexo do que somos: viajantes
temporais e espaciais, ainda que nossas distâncias sejam medidas de outra
forma.
No fundo, meu ano-luz é uma jornada silenciosa e profunda, não
marcada pela velocidade, mas pela intensidade do que vejo e do que sinto. Eu
sou um viajante, e a luz que carrego em mim é a que ilumina minha estrada, sem
pressa de chegar, mas com a certeza de que o caminho, esse sim, é eterno.
E assim sigo, como parte do cosmos, transportando-me através
do tempo e espaço, com a mesma beleza e mistério que as estrelas guardam,
sabendo que o meu ano-luz é meu, único e intransferível, refletido em cada
passo que dou, em cada memória que guardo, e em cada história que continua a
escrever.
Quem diria que, na pequena parte da minha caminhada, eu já
teria percorrido tanto? Um ano-luz, ou talvez mais, se a medida for pela beleza
e o significado do que vivi.
Nenhum comentário:
Postar um comentário