domingo, 19 de julho de 2026

Nem Abriu o Bico, Nem Piou!

Há silêncios que são escolhas. Outros, porém, são prisões. A Bíblia registra uma das ma       is impressionantes imagens do medo coletivo quando o rei da Assíria, embriagado por suas conquistas, compara as nações a um ninho abandonado. Para ele, tomar cidades e reinos era tão fácil quanto estender a mão e recolher ovos de um ninho indefeso. Não havia resistência. Não havia quem defendesse os filhotes. Não havia sequer o bater de asas de uma ave corajosa.

Então vem a frase que atravessou os séculos: 

"Nem abriu o bico, nem piou."

Que retrato eloquente do terror! Não era apenas a ausência de palavras; era o desaparecimento da esperança. Ninguém protestava. Ninguém clamava por justiça. Ninguém ousava levantar a voz. O medo havia calado até o mais tímido dos sons.

Talvez seja por isso que essa expressão tenha sobrevivido ao tempo e encontrado abrigo em nossa língua. Ainda hoje dizemos que alguém "não abriu o bico" ou "não piou". Nem sempre nos damos conta de que carregamos, em poucas palavras, a memória de um dos maiores impérios da Antiguidade e do pavor que ele espalhou entre os povos.

Curiosamente, o silêncio continua sendo uma das mais poderosas linguagens humanas.

Há quem se cale porque errou. Há quem se cale porque teme as consequências da verdade. Há quem se cale diante da injustiça, convencido de que falar apenas agravará seu sofrimento. Existem, ainda, os silêncios impostos pelos poderosos, quando a força substitui o diálogo e a intimidação ocupa o lugar da razão.

Mas existe outro silêncio, muito diferente daquele descrito pelo rei da Assíria. É o silêncio da confiança. O silêncio de quem espera o momento certo para agir. O silêncio de quem sabe que nem toda resposta precisa ser imediata.

O problema é quando o medo transforma homens em pássaros de bico fechado.

A história demonstra que nenhum império permanece para sempre. A própria Assíria, que se julgava invencível, acabou desaparecendo das páginas do poder. O rei que zombava das nações descobriu que existe uma voz diante da qual nenhum conquistador consegue permanecer de pé: a voz da justiça.

Talvez essa seja a maior lição escondida naquela antiga expressão. O silêncio dos homens pode durar algum tempo, mas nunca será eterno. Quando a verdade encontra espaço para falar, até os impérios mais arrogantes descobrem que sua força era apenas passageira.

Por isso, sempre que ouvirmos alguém dizer que outro "nem abriu o bico, nem piou", vale a pena lembrar que essas palavras nasceram muito antes de se tornarem um simples dito popular. Elas vieram de um tempo em que o medo parecia invencível. Parecia.

Porque o medo pode calar a voz por um momento, mas jamais consegue silenciar a história. (Pr. Maurício de Souza Lino)

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